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Comida e Audiovisual


Deus, o homem, a morte, a imagem - sucessivamente matamos nossos mitos para nos conhecer melhor, mas não conseguimos ir além de trocar os elementos visuais do 'Centro'. Ou ainda: vivemos uma transição entre os fetiches da Mercadoria e da Máquina? O que fazer para que esses modelos de organização social se humanizem? Como eles funcionam? O que é fetiche? Uma ilusão ou um modo de virtualização? Etimologicamente a palavra vem de 'feitiço' e dos estudos da antropologia francesa sobre 'os assentamentos'. Ou seja: o termo surgiu para designar uma relação de imanência transversal entre uma coisa (lugar ou pessoa) e um 'axé'. As noções desencantadas do termo - utilizadas por Marx (em sua análise da mercadoria) e a freudiana que virou gíria sado/masô (o desejo que se amplifica e se centraliza em objeto de adoração) - foram posteriores. Assim por mais que rechacemos nossos objetos de culto, pensamos sempre através de metáforas e por mais críticos e rigorosos que sejamos, voltamos sempre às nossas velhas referências simbólicas.
  • O Candomblé
O texto O Candomble como sistema de transmissão de Identidade, primeira parte desta tetralogia intitulada Comida e Audiovisual, apresenta o culto do Candomblé no Brasil como um sistema de referências simbólicas, através do levantamento sígnico geral de suas práticas e ritornelos. 

Já o texto As Linguagens Simbólicas do Inconsciente, resgata a idéia de que o saber, seja religioso, filosófico ou científico, teve sua origem nos jogos divinatórios e sistemas de signos relacionados a leitura do inconsciente. Desde os tempos das cavernas, forjamos nossos mitos através de rituais que combinam imagens e alimentos - em um sistema de correspondência voltado para a previsão do futuro. 

E em um terceiro momento, interessa-nos sobretudo observar como essa linguagem simbólica se organiza em diferentes 'freqüências de rede', isto é, em identidades simbólicas. Em O Ifá: alimentos, o audiovisual e energia psíquica estuda-se no sistema do jogo de búzios, a correspondência simbólica entre alimentos e imagens existente. Nele, descobrimos que o processo de construção dessas identidades combina elementos audiovisuais com diferentes regimes de restrição alimentar: "o homem não é o que come, mas o que não come." Este texto tem muitos links para as principais páginas sobre os cultos afro-brasileiros, com lendas, características e imagens dos orixás. 

Hoje as comidas e plantas não são mais classificadas segundo seus lugares no espaço/tempo mítico, mas sim em relação as faixas vibratórias de um corpo universalizado. Houve uma passagem do sistema múltiplo, selvagem e territorial dos Orixás no Candomblé ao enquadramento e síntese das freqüências no modelo setuplo do ocidente na Umbanda. O sistema de classificação das referências alimentares e audiovisuais dos orixás se transformou em sistema de classificação de referências psicológicas da personalidade. Houve uma a virtualização das identidades atávicas e genéticas em identidades sócio-culturais. E é este resgate que nos interessa e que esbouçamos sumariamente em Freqüências em Rede, o último texto da série.

Porém, temos antes que entender extamente o que o Candomblé tem haver com nosso estudo geral, A Anatomia do Ruído, e quais nossos objetivos específicos nesta pesquisa no universo dos cultos afro-brasileiros.

  • A Virtualização da Biotecnologia
No front da guerra civil espanhola, George Orwel conta que se trocava metade da alimentação por uma boa estória. O ser humano tem tanta necessidade de informação quanto de comida. E também há uma equivalência histórica entre o agricultor e o contador de histórias, entre a escrita e o sedentarismo. E mais do que o advento do microcomputador e da sociedade informatizada, foi o retorno à linguagem audiovisual superpotencializada pela tecnologia que trouxe consigo vários problemas para os quais ainda não temos respostas. 

No mundo globalizado sem fronteiras, as fábricas migram para onde a matéria-prima e a mão-de-obra são mais baratas. Os países ricos não são os produtores de bens materiais, os 'industrializados', mas sim os que produzem bens simbólicos e culturais, que desenvolvem costumes e pesquisas de ponta e lucram com sua comercialização.

O Brasil é um país exportador. No entanto, por mais superavits comerciais que tenhamos tido no passado, seja com café ou com automóveis, quase sempre fecha sua balança de pagamentos no vermelho e nunca conseguimos pagar parcelas significativas de nossa dívida externa. Já os EUA vivem uma situação diametralmente oposta a nossa: os Estados Unidos sempre tem um déficit comercial e sempre fecha sua balança de pagamentos em superavit, devido aos royalties, marcas, patentes e outras formas de direito autoral. Moral da história: os bens simbólicos (ou virtuais) valem mais que os bens materiais.

Daí a importância estratégica da pesquisa científica no cenário pós-industrial, pois ela é que é o verdadeiro diferencial macroscópico entre desenvolvimento real e crescimento 'subindustrializado', que dá empregos em troca de royalties mas não incentiva a elaboração de tecnologias próprias e de identidades regionais. A participação brasileira no registro mundial de patentes é inferior a 1%! Não temos tecnologia e as chances de obtê-la são cada vez menores. Em compensação, somos o país de maior megadiversidade do planeta.

E não falta quem teorize sobre os fatos. Para Laymert Garcia dos Santos (1), por exemplo, "com o desenvolvimento da informática, nos anos 70, e da biotecnologia, a partir dos 80, abriu-se para a tecnociência a possibilidade de explorar a informação, isto é, a terceira dimensão da matéria, depois da massa e da energia. Definida por Gregory Bateson como a diferença que faz a diferença, a informação é essa unidade mínima, molecular e intangível, ao mesmo tempo qualitativa e quantitativa, que compõe a matéria inerte e o ser vivo e que agora poderia ser apropriada" (2).

No cerne deste projeto do capitalismo conteporâneo encontram-se as definições de patrimônio genético como um conjunto de componentes informacionais e de conhecimento tradicional associado como um conjunto de informações. Tais definições têm o fantástico poder de converter as plantas, os animais, os microorganismos e todo o conhecimento coletivo elaborado ao longo de séculos num enorme banco de dados virtuais, que a Sociedade poderia gerenciar.

Independente das questões de patentes genéticas (3), o reconhecimento de uma memória arcaica como um patrimônio comum deveria ser um progresso. Não é por acaso, entretanto, que só agora, no crepúsculo da comunicação de massa, que o capitalismo descobre a biodiversidade. Aliás, desdo anos 40, no Brasil do pós-guerra, nota-se nitidamente a relação entre indústria cultural e a homogenização alimentar através do consumo de amido a base de trigo. Na verdade, essa homegenização começa com a escrita e está associada ao plantio dos cereais. As culturas orais e os povos nômades tinham um regime alimentar/audiovisual diferente, múltiplo e singularizado, como se pode ver no caso dos cultos afro-brasileiros, em que os alimentos e suas interdições variam, não apenas de local para local, mas sobretudo de indivíduo para indivíduo em um mesmo lugar, e, até mesmo, de entidade para entidade em um mesmo indivíduo.

Será que a segmentação da comunicação de massa em múltiplos públicos-alvo desterritorializados vai retomar os antigos sistemas tradicionais de transmissão de identidade simbólica? Como o consumo vai cartografar a subjetividade? Como a mídia eletrônica e o novo marketing interativo vão organizar o espectro de freqüências de rede em um futuro próximo? Não sabemos. Mas podemos estudar a virtualização de nossas referências simbólicas ao longo do tempo, observando suas diferentes funções e características. 

E essa é nossa intenção nestes breves textos. Também aqui utilizamos o método hermenêutico dos quatro níveis: primeiro o aspecto sígnico em O Candomblé como sistema de transmissão de Identidade; depois As Linguagens Simbólicas do Inconsciente; em seguida, O Ifá: alimentos, audiovisual e energia psíquica como paradigma ou modelo exemplar; e, por último, o resgate da noção de Freqüências em Rede. Mas, que fique claro: o candomblé e a espiritualidade afrobrasileira são assuntos muito vastos e, ao mesmo tempo, também muito específicos; não cabendo ser aprofundados aqui no âmbito desta pesquisa (4). Nossa investigação atual quer apenas traçar uma comparação entre o que havia antes da escrita com o que está aparecendo depois. Aqui, da mesma forma que no próximo capítulo, com o tema da Entheogênesis, interessa à Anatomia do Ruído desenhar o delicado equilíbrio entre ordem e desordem, mas do que aprofundar os assuntos, que por si só mereceriam trabalhos específicos.


O HERMENEUTA
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NOTAS

(1) Laymert Garcia dos Santos, 50, sociólogo, doutor em ciências da informação pela Universidade de Paris 7, é professor livre-docente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, presidente da Comissão Pró-Yanomami e autor de "Tempo de Ensaio" (Companhia das Letras), entre outras obras. Textos extraídos de seu artigo para o jornal A Folha de São Paulo, dia 08 de junho de l999.

(2) Segundo ele, "rapidamente, o grande capital descobriu a importância de colonizar essa dimensão virtual da realidade; entendeu que seu futuro consistia em controlar a modulação dos processos, não mais a fabricação de produtos. E concluiu que tanto a informação digital quanto a genética tinham de ser privatizadas, o que se fez pela ampliação do conceito de propriedade industrial, universalizado, então, como propriedade intelectual. A articulação da informação digital e genética com o regime jurídico da propriedade intelectual permitiu ao grande capital instaurar uma ordem de alcance ao mesmo tempo global e molecular, que vai concretizar sua estratégia de apropriação absoluta da natureza por meio da recombinação e da reprogramação de seus componentes. Mas tal operação exige a desvalorização de todo o conhecimento existente e da própria vida (vegetal, animal, microorgânica e inclusive humana), que se tornam pura matéria-prima para a digitalização e a manipulação genética, essas, sim, geradoras da nova riqueza privada."

(3) Como por exemplo a disputa judicial envolvendo multinacionais e grupos religiosos brasileiros pela patente do DMT, o alcalóide da Jurema e da Ayahuasca, registrado por laboratórios norte-americanos como antidepressivo.

(4) Nesta investigação, interessa-nos sobretudo a noção de cada indíviduo é uma federação de Eu's ou entidades - 'A Coroa' - uma vez que ela também vai ser bastante freqüente na Internet. Aliás, nós mesmos somos vários personagens: O Hermeneuta, O Encantador de Serpentes, O Traficante de Idéias, etc ...