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Comida e Audiovisual III
  • O IFÁ: ALIMENTOS, O AUDIOVISUAL E ENERGIA PSÍQUICA
A estrutura litúrgica do culto aos orixás no candomblé pode ser resumida como o processo de, ritualisticamente, acumular, e em seguida transmitir, axé para os filhos-no-santo nestes três níveis: o ciclo anual de ‘firmeza’ da casa, o ciclo mensal de realimentação energética dos fetiches e dos abôs, e o ciclo diário das obrigações individuais decorrentes da iniciação.

 No centro de todas essas relações que compõem a ‘economia energética’ do candomblé está Ifá, o orixá da adivinhação. O jogo oracular mais comum é constituído por l6 búzios (pequenas conchas). O pai-no-santo agita os búzios nas mãos e lança-os dentro de um círculo, formado por colares de diversos orixás. O búzio pode cair ‘aberto’ ou ‘fechado’, ou seja, com sua face onde há uma fenda ou com o lado liso. Cada uma dessas ‘caídas’ é uma manifestação de um orixá e tem um significado próprio, já que, conforme a ordenação resultante, pode-se determinar qual deles está respondendo.

 Todos os aspectos da vida são suscetíveis de codificação por cada um dos orixás que se manifestam no jogo. Os deuses se tornam assim o princípio de classificação dos acontecimentos: cada um governa um acontecimento-tipo. Além da ordenação dos búzios (abertos e fechados), que determina a entidade que preside cada resposta, a configuração - ou o modo particular como os búzios se distribuíram geometricamente no espaço - também é fundamental para a leitura, pois corresponde à ‘organização energética’ do inconsciente do indivíduo frente a uma força matriz. O conjunto dos dois fatores, ordenação e configuração, chama-se odú ou sina.

O Sistema de Ifá embora bastante contestada por pesquisadores posteriores, a relação recolhida e apresentada por Roger Bastide e Pierre Verger, hoje é utilizada e até citada por vários adivinhos.
 
 

ENTIDADE
BÚZIOS
ENTIDADE
BÚZIOS
Exú
01 abertos e 15 fechados
Obá
15 abertos e 01 fechados
Ibeji
02 abertos e 14 fechados
Oxumaré
14 abertos e 02 fechados
Ogum
03 abertos e 13 fechados 
Omulú
 13 abertos e 03 fechados
Xangô
04 abertos e 12 fechados
Ossaim
12 abertos e 04 fechados
Yemanjá
 05 abertos e 11 fechados 
 Logunedé
11 abertos e 05 fechados
Yansã
06 abertos e 10 fechados
 Oxum
10 abertos e 06 fechados
Oxossi
07 abertos e 09 fechados 
Nanã
09 abertos e 07 fechados
Oxalá
08 abertos e 08 fechados
Lance nulo
16 abertos ou fechados

 Assim, a ordenação aberto-fechado determina que orixá está falando e a configuração espacial dos búzios indica o que ele está dizendo. Através de sucessivas jogadas, chega-se , então, a uma espécie de inventário do que está acontecendo à pessoa, não apenas em relação aos seus orixás tutelares, ‘os donos de sua cabeça’, mas também como outras entidades estão influindo positiva ou negativamente em sua vida, quais são as suas tendências recorrentes e as possibilidades diante do destino. Geralmente são propostos trabalhos e obrigações para o re-equilíbrio energético.

 As respostas são decifradas através de lendas e das estórias dos deuses - que são transmitidas de geração em geração através da tradição oral. Por isso, ‘jogar búzios’ requer não somente bastante intuição para interpretar as diferentes configurações formadas pelas forças-matrizes, mas também um conhecimento oral do conjunto da tradição mítica dos orixás e do seu universo simbólico. O sacerdote de Ifá era, originariamente, chamado de Babalaô.  Eles eram os historiadores orais da cultura africana. Sua iniciação era muito mais complexas que as outras, pois não envolvia a identificação com um único arquétipo e o desenvolvimento de suas características na personalidade do iniciando, mas sim o aprendizado de séculos de conhecimento armazenado pelo culto. Hoje os zeladores de santo em geral manejam o oráculo. 

  • Referências Simbólicas
Mesmo sendo um processo onde a identidade é produzida predominantemente por freqüências rítmicas e cromáticas, o Candomblé não é apenas um conjunto de referências audiovisuais, mas também, de referências degustativas, olfativas e táteis (as comidas, incensos e ervas). Na verdade, essas referências cinestésicas literalmente ‘alimentam’ as freqüências audiovisuais, através de oferendas e sacrifícios, as linguagens simbólicas necessitam ser nutridas de energia psíquica, o Axé. Vejamos suas principais referências simbólicas.

 Ao processo ritualístico pelo qual se liga um corpo material à energia de um determinado orixá, chama-se ‘assentamento’. Por redução, o termo é utilizado para designar objetos (pedras, amuletos, instrumentos ritualísticos) que representam cada orixá, depois de um ritual onde a energia mística da entidade seja concentrada nos seus corpos. O fetiche mais comum é o ‘otá’ (pedra). Ele fica mergulhado em líquidos e substâncias, guardadas em pequenos frascos (as quartinhas) vedadas com panos coloridos com símbolos bordados, dependendo do orixá. Os líquidos mais comuns são o mel, o azeite-de-dendê e a água macerada com ervas do santo. São utilizadas águas de diferentes procedências: água do mar, dos rios, da chuva, etc., Os líquidos ou ‘Abós’ são preparados ritualmente com algumas gotas de sangue animal e com cantos secretos que apenas os Babalorixás conhecem. Há casos, no entanto, como na água de Xangô, que é preparada a apartir de uma ‘pedra de raio’ (meteorito), em que o otá é que imanta o líquido da quartinha.
 
 

Quadro de Referências Simbólicas por Entidade

ORIXÁ
SUA COR
SAUDAÇÃO
DOMÍNIO
ELEMENTO
Oxalá 
Branco 
Axé Babá!
A Criação 
O CÉU
Yemanjá 
Branco e Prata 
Odoiá! 
A Maternidade 
O MAR
Iroko 
Branco e Cinza 
Iroko i só! 
O Tempo 
GAMALEIRA (árvore)
Oxumaré
Vermelho e Amarelo
Arô Boboi! 
A Alternância dos Opostos 
O ARCO-ÍRIS E A COBRA
Omulú
Branco e Preto 
 Atotô! 
Sofrimento e dor 
A DOENÇA
 Nanã Burukê 
 Roxo
Salubá! 
A Morte 
LAMA, LODO PÂNTANOS
Ibeji
Várias Cores Vivas 
Bejê Orô! 
Os Jogos 
CRIANÇAS
Logunedé
Amarelo e Azul Claro 
Logum ou Oriki!
A Caça e a Pesca 
RIOS E FLORESTA
Obá 
Amarelo e Vermelho 
Obá Xireê! 
A Culinária 
CACHOEIRAS
Oxum 
Amarelo
 Ora ieiê! 
A Beleza 
ÁGUA DOCE
Iansã 
Marron Avermelho
Epahei!
 Os mortos 
A TEMPESTADE
Xangô
Vermelho e Branco 
Kauô-Kabisselê! 
Raio e Trovão (Justiça) 
PEDRAS E MONTES
Ossaim
Azul e Vermelho 
Ue-eô! 
 Cura e Liturgia 
FOLHAS
Oxossi 
Verde e Azul Claro
Okê Arô! 
Animais da Floresta 
MATAS
Ogum
Azul Escuro 
Ogunhê!
Caminhos e Guerra 
FERRO
Exú
Preto e Vermelho 
Laroiê! 
Portas e Encruzilhadas 
FOGO

 Todos assentamentos são periodicamente alimentados por sacrifícios e oferendas características de cada entidade, de forma a re-energizá-lo do seu Axé específico. Tal energia é armazenada nos pontos centrais do terreiro e utilizada  para dinamizar novos objetos ritualísticos ou para a manifestação das entidades em seus filhos. Assim, por extensão, o termo ‘assentamento’ também se refere à pedra fundamental do terreiro (onde por ocasião da inauguração são enterrados diversos objetos referentes ao santo da casa) e ao processo de iniciação ritual de um filho no santo (ou Iaô), para designar o momento em que a força mística do orixá é fixada na cabeça de um participante do culto. Temos, portanto três tipos de assentamentos distintos e três esferas de realimentação energética.

 Todos candomblés tradicionais têm assentamentos da casa, aqueles pertencentes ao orixá a que o terreiro é dedicado. Estes assentamentos são enterrados por ocasião da cerimônia de inauguração do local, na pedra fundamental da casa ou sob o ‘Ixé’, um mastro central onde se asteia a bandeira com os símbolos gráficos do orixá padroeiro. Na entrada de todos terreiros, costuma existir uma Gameleira-Branca, árvore consagrada a Iroko (o Tempo), que é plantada segundo rituais prescritos e também deve ser considerada um assentamento da casa. Este orixá responde pelas mudanças climáticas e meteorológicas, é uma espécie de guardião do terreiro. Caso exista no local a presença de outras forças naturais (cachoeiras, rios, pedreiras, etc.) também podem haver assentamentos específicos para os orixás correspondentes.

  • Calendário e  obrigações
 De uma forma geral, estes assentamentos são alimentados Ossé anual - que é uma grande festa de limpeza do altar e de todo terreiro, quando são servidos alimentos ritualísticos especiais para todos os orixás - e nas festas públicas de cada um dos santos, conforme o calendário litúrgico tradicional. Apesar do caráter semi-matriarcall das culturas africanas, o calendário litúrgico original do candomblé era marcado pelo advento das quatro estações climáticas, com o solstício de inverno (junho) dedicado aos principais orixás masculinos (Ogum, Xangô, Oxalá) e o solstício de verão (dezembro) consagrado aos orixás femininos (Iansã, Oxum, Yemanjá). Nunca houve um único calendário para o culto dos orixás. no Brasil, a fiscalização que os feitores das fazendas onde trabalhavam os escravos africanos exerciam e a repressão em geral aos cultos do candomblé fizeram com que os negros se adaptassem, da maneira que puderam, suas festas às cerimônias católicas. 
 
 
DATA
SANTO DO DIA
CELEBRAÇÃO
20 de janeiro
São Sebatião
 Festa de Omulú (BA)
e Oxossi (RJ)
02 de fevereiro
 N. Sra. das Candeias 
Festa de Yemanjá (BA)
23 de abril
São Jorge
 Festa de Ogum (RJ) 
e Oxossi (BA)
13 de junho
Santo Antônio
Festa de Ogum (BA)
24 de junho
São João Batista
Festa de Xangô
29 de junho
S. Pedro e S. Paulo 
Festa de Oxalá
26 de julho
N. Sra. de Sant’ana 
Festa de Nanã Burukê
24 de agosto
São Bartolomeu
Festa de Oxumaré
27 de setembro
Cosme e Damião 
Festa dos Ibeji
30 de setembro
São Jerônimo
Festa de Xangô
02 de novembro
Finados
Festa de Todos os Santos
04 de dezembro
Santa Bárbara
Festa de Yansã
08 de dezembro
Virgem da Conceição
Festa de Oxum

 Existem ainda no âmbito do terreiro: a tronqueira, o assentamento do Exú protetor da casa, e o Ilê-Saim, a casa dos mortos (eguns) que ainda estão identificados à vida material. Esses assentamentos, que ficam sempre fora da área do terreiro consagrada aos orixás, não são alimentados anualmente, mas sim conforme o ciclo lunar de 28 dias e o ciclo diário das marés. No candomblé, o Exú é a entidade que apresenta a freqüência mais densa do espectro (vermelho e preto), a única capaz de estabelecer uma ligação entre os homens e os orixás. Por isso, ele é requisitado para iniciar todas operações rituais do culto. Cada orixá tem seus próprios exús, que funcionam como servos ou mensageiros, possibilitando o contato com as entidades. Portanto, antes de qualquer oferenda para os santos, também é sempre feito um sacrifício aos exús correspondentes. O objetivo deste sacrifícios é manter atuantes os axés dos assentamentos, as forças místicas dos orixás. O sangue, juntamente com o álcool e a sexualidade, são veículos materiais que emitem as vibrações indispensáveis aos exús e aos desencarnados em geral atuarem no plano material e também, no sentido inverso, aos homens penetrarem em outros estados de percepção e consciência.

 O assentamento de um orixá em  um ser humano é realizada através de um processo cerimonial chamado de ‘iniciação’. Estes processos são alimentados por obrigações, oferendas individuais de cada iniciado aos seus orixás tutelares ou a uma entidade com a qual esteja momentaneamente desarmonizado. Além das cerimônias anuais do calendário litúrgico, existe um dia da semana consagrado a cada orixá, que pode ser usado para a entrega de obrigações individuais, feitas de comidas ofertadas e da realização de sacrifícios animais.

 As restrições alimentares também condicionam simbolicamente esta identidade permanente entre os homens e os deuses: as proibições consistem em não consumir as substâncias que vibram na mesma freqüência do santo a que se está identificado. Apenas no processo de iniciação estas substâncias são ritualmente ingeridas. Após este período, as comidas características de cada orixá são interditadas a seus filhos. Caso o indivíduo não obedeça a estas restrições alimentares a que se encontra submetido e realize uma ‘auto-antropofagia simbólica’, ele sofrerá as quizilas (sensação de nojo, mal-estar). Pelo mesmo motivo, a manutenção da identidade psíquica entre o Orixá e o iniciado, eram considerados incestuosos os casamentos entre os filhos de um mesmo santo. Na África, visto que os candomblés eram verdadeiras identidades étnicas e haverem laços reais de parentesco entre os grupos que cultuavam uma mesma entidade, esta proibição tinha um sentido genético, além de cultural e intersubjetivo.

 Mas não se deve pensar que os homens são prisioneiros de um comportamento estereotipado, meros instrumentos passivos dos deuses: “o santo também é possuído por seus filhos”, que têm um papel ativo, tecendo relações complexas entre os orixás e a comunidade, multiplicando as relações entre as próprias entidades. O discurso dos iniciados traduz esta reciprocidade claramente. Do mesmo modo que se fala do ‘seu’ santo, costuma-se comentar também que ‘se é o próprio santo’: “o Xangô de fulano é rebelde”; e inversamente: “Beltrano é um dos Ogum da casa”. Ou seja: ao mesmo tempo que os deuses são designados como propriedades dos seus filhos, os iniciados também são propriedades dos orixás com que estão identificados. Ocorre, assim, um jogo constante de trocas entre o indivíduo concreto e o princípio abstrato que ele manifesta. Há, portanto, uma reciprocidade simbólica muito dinâmica entre a entidade e a pessoa.

E é esta reciprocidade que se desenvolve simultaneamente em três níveis - o ciclo anual de ‘firmeza’ da casa, o ciclo mensal de realimentação energética dos fetiches e dos abôs, e o ciclo semanal das obrigações individuais decorrentes da iniciação. E este último ciclo, no entanto, acabou simplificando todo sistema múltiplo e selvagem do Ifá em um sistema de sete vibrações principais. É o que veremos a seguir em Freqüências em Rede.


O HERMENEUTA
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