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Comida e Audiovisual II
  • AS LINGUAGENS SIMBÓLICAS DO INSCONCIENTE
Para tomar suas decisões mais importantes, os antigos chineses consultavam as rachaduras de um casco de tartaruga, exposto ritualmente a um ferro em brasa; os etruscos obedeciam aos deuses através do estudo dos relâmpagos; os caldeus reconheciam o universo nas vísceras de animais mortos. As técnicas e métodos primitivos de leitura do inconsciente estão sempre ligados a duas idéias fundamentais: a idéia de correspondência universal, segundo a qual pode-se conhecer o todo através de sua imagem em um fragmento; e a idéia de quebra da linearidade do tempo, da transcendência da duração contínua entre passado, presente e futuro - geralmente provocada pelo transe ou pela mudança do estado de consciência do adivinho.

 Os jogos de adivinhação são as associações e correspondências a que o homem chegou através da experiência da sincronicidade - a percepção da simultaneidade absoluta de todos os eventos. Com o tempo, a codificação dos sinais decifrados em transe estruturou o que chamamos de Linguagens Simbólicas do Inconsciente. Essas linguagens seriam formadas pela imagem arquetípica dos aspectos da natureza e ainda hoje estariam em permanente desenvolvimento. Porém, com a progressiva dessacralização das culturas ancestrais - iniciada por volta de 1.500 a.C., com  o aparecimento da vida sedentárias das primeiras cidades e da Escrita de codificação gráfico-fonética; sedimentada pelo pensamento filosófico desencadeado por Sócrates e Platão; e, concluída pela industrialização generalizada de todos os objetos e pelo desenvolvimento do pensamento científico - a antiga arte divinatória e suas linguagens simbólicas foram destronadas pela filosofia da objetividade e relegadas à condição de superstição e de crendice. Nas sociedades tradicionais, sem subjetividade individual nem objetividade uniforme, as artes divinatórias representavam a síntese hermenêutica do conhecimento humano; na modernidade, elas foram rebaixadas pelo pensamento científico às diversas ‘mancias’:  a cartomancia, a geomancia, a quiromancia, a necromancia.

 Sabe-se que, nos primórdios da História, o nômade paleolítico caçava durante a lua cheia e, em sua caverna na lua nova, dedicava parte da caça ao ‘senhor das feras’, como forma de agradecimento e pedido de sucesso em novas empreitadas. Segundo Mircea Eliade , as imagens desenhadas nas cavernas tinham um caráter mnemônico, ou seja, eram objeto de culto e invocações durante os rituais sangrentos da lua nova. Elas eram um meio mágico pelo qual o homem arcaico simbolizava seus desejos.

Certo dia, no entanto, o caçador nômade desejou ‘caçar’ uma mulher ou derrotar um inimigo e acabou desenvolvendo um panteão para manipular as forças de seu universo cosmológico. Assim, para conquistar uma fêmea, ele deveria sacrificar determinados animais, vegetais e objetos com características comuns, a uma deusa aquática, como a deusa grega Afrodite, a Venús latina ou a deusa nagô Oxum dos afro-americanos. Já se o desejo era o de derrotar seus inimigos, ele invoca um deus guerreiro do fogo, como Ares, Marte ou Ogum, ou mesmo um demônio protetor do seu clã.

  Este panteão primitivo, que encarnava diferentes aspectos da natureza mesclados com o culto aos antepassados, foi, não apenas a primeira manifestação religiosa de que se tem notícia, mas também, o mais antigos registro da cultura humana. A própria palavra ‘adivinhar’ significa literalmente ‘falar com os deuses’ e por isto a atividade passou a ser exercida exclusivamente por membros da classe sacerdotal ou por suas diferentes variações xamânicas e místicas. Porém, com o aparecimento das primeiras cidades e da vida sedentária, o homem evoluiu do estágio lunar-maternal para uma nova estrutura social e para um novo paradigma de representação. Enquanto o aparecimento da escrita fundou um novo tipo de cultura, o advento da agricultura impôs deuses e calendários solares e o poder político se ‘masculinizou’ em torno da imagem de reis freqüentemente considerados filhos ou descendentes das divindades solares.

 Neste novo contexto, as linguagens simbólicas se tornaram mais probabilísticas e menos mágicas. Tratava-se então de prever os acontecimentos e não de controlá-los; de conhecer antecipadamente o destino a longo prazo e não de satisfazer às necessidades imediatas. Neste sentido, a arte divinatória incluía conhecimentos de medicina, meteorologia, administração pública e estratégia militar - além do necessário conhecimento psicológico do transe e dos elementos cognitivos que estruturavam a linguagem dos dogmas religiosos. Os ‘deuses’ não eram mais simples personificações de forças naturais, mas também representavam simultaneamente lugares, vocações, dramas arquetípicos que fundavam costumes e tradições - estavam, portanto, muito longe da representação dos ‘tipos psicológicos’ modernos, como os atuais signos astrológicos e os orixás. Na antigüidade não havia o que chamamos de ‘adivinhação individual’. Até mesmo os oráculos dos reis não se referiam a eles como pessoas mas como instituições. Nas artes divinatórias primitivas o que importava era a interpretação e a manipulação das forças naturais e não o destino individual dos consulentes. Ao contrário: a idéia de destino individual era constantemente ‘sacrificada’ em nome da harmonia cósmica.

 Muitos autores associam o aparecimento dos primeiros alfabetos a esta ‘racionalização solar’ dos símbolos arcaicos da adivinhação primitiva, ou pelo menos, que várias escritas ideográficas anteriores ao predomínio dos idiomas Indo-europeus (de codificação gráfico-fonética) foram marcadamente influenciados por técnicas divinatórias, tais como o chinês, o sânscrito, o hebraico antigo, os alfabetos rúnicos e os hieróglifos egípcios. Jean Nougayrol , por exemplo, estudou a evolução dos sinais da auruspicia mesopotâmica nas culturas assírica e babilônica. O vocabulário técnico desta modalidade de adivinhação, em um primeiro período, contava com cerca de seis mil sinais de tipo funcional, sendo comparável à nossa toponímia cerebral. Havia  uma relação direta entre cada símbolo e o objeto ou ação concreta representada.

 Com o passar do tempo, segundo Nougayrol, os sinais - que representavam diretamente as idéias mnemônicas do universo primitivo - foram sendo gradativamente agrupados e reduzidos, no sentido de representarem o panteão astrológico, passando a associar sons, fonemas a elementos da mitologia.  Assim, os sinais da escrita cuniforme são o resultado de um longo processo histórico de simplificação dos símbolos arcaicos da auruspicia e de sua utilização de seus oráculos nas genealogias reais e nos calendários. É importante ressaltar que esta ‘racionalização’ dos sinais mnemônicos seguiu a evolução dos dogmas religiosos dos caldeus, os primeiros a apresentarem um panteão astrológico-solar completo, formado por uma trindade cósmica, sete divindades planetárias e doze entidades zodiacais . Hoje este modelo astrológico não nos serve mais de paradigma de observação científica dos céus mas continua válido como modelo simbólico.O fato de alguns alfabetos, como o hebreu, possuirem 22 letras (3=7=12), levou a maioria dos ocultistas modernos a sustentaresm que as imagens das cartas de Tarô derivariam de uma linguagem universal dos sinais das escritas ideográficas.

Assim, no paradigma objetivo da astronomia, sabemos que a Terra gira em torno do Sol; no entanto, continuamos dependendo simbolicamente do paradigma subjetivo da astrologia, que como uma linguagem do inconsciente, condiciona atitudes e comportamentos, através da associação de determinadas características psicológicas aos meses do ano, por exemplo. A ciência e o pensamento objetivo superaram apenas parcialmente o antigo paradigma de representação e esta ‘superação’ é uma questão muito relativa: ao contrário do que pensam os historiadores da ciência, a idéia de um sistema geocêntrico não significa que Ptolomeu acreditasse que o Sol girasse em torno da Terra, mas sim que ele colocava a questão da representação objetiva do universo em um segundo plano diante da idéia de decifração do destino através da observação especular das estrelas. Devido ao movimento de precessão do eixo da terra, os céus astrológico e astronômico não coincidem mais. Tal fato, paradigmático da relação entre cosmologia científica e cosmogonia simbólica, divide atualmente os astrólogos em dois grandes grupos: os defensores de uma atualização do simbolismo ao céu real e os que dissociam completamente a linguagem astrológica da realidade astronômica.

 As linguagens simbólicas do inconsciente continuam na base do processo cognitivo, formando um importante patrimônio cultural coletivo com o qual não cessamos de interagir. E mais: apesar das inúmeras diferenças epistemológicas dos modus operandi  entre o conhecimento científico e o saber tradicional, ambos têm um único objetivo: evitar o infortúnio e a adversidade, procurando antecipar os acontecimentos para controlá-los.

 Infelizmente, as tentativas de fazer uma aproximação entre os dois saberes foram, até o momento, muito modestas. É claro que muitos trabalhos já enfatizaram a importância da imagem e do arquétipo em diferentes domínios epistemológicos (publicidade, psicologia, educação). Entretanto, ainda são escassas as iniciativas que pesquisam os efeitos e os limites do papel que os arquétipos desempenham na própria interpretação. Em seu prefácio a tradução alemã do Livro das Mutações , Jung esbouça pela primeira vez uma explicação científica sobre o fenômeno da adivinhação a partir de suas teorias da sincronicidade e do inconsciente coletivo. Este trabalho é retomado e desenvolvido por Marie-Louise Von Franz , que estuda diferentes gêneros de adivinhação à luz das categorias junguianas.

 Tornou-se lugar comum dizer atualmente que o tempo é a quarta dimensão do espaço físico e que ‘o passado e o futuro só existem no presente’. Os jogos de adivinhação procuram saber como as causas passadas e as possibilidades futuras condicionam o presente, como estes dados estão estruturados no inconsciente. No entanto, a verdade é que levamos algum tempo para compreender a real natureza do tempo e os limites epistemológicos da previsibilidade. Recentemente, sob o nome de ‘experiência précognitiva’, Danah Zohar  atualizou e ampliou a discussão iniciada por Jung sobre adivinhação e sua relação com a física contemporânea. É que, para escapar a concepção newtoniana de tempo linear e contínuo válido para todos os elementos de uma determinada totalidade, concepção universal e historicista (que no âmbito das ciências humanas poderiam ser representados por Marx e Max Weber); Jung e Von Franz incorreram em uma concepção einstiniana de um tempo relativista e sincrônico: a duração intrínseca do espaço físico.

 Atualmente, graças aos teóricos da complexidade (Prigogine, Atlan, Morin), a descontinuidade e a sincronicidade de nossas memórias não são mais avessas à história e a irreversibilidade da vida. Ao contrário: agora elas se completam em uma visão que quer religar o universal ao particular, o global ao específico, o passado ao futuro. Trata-se agora de encontrar um equilíbrio entre um ‘querer involuntário’ formado pelo conjunto de fatores históricos determinantes e uma ‘consciência cognitiva’ forjada na seleção sincrônica das possibilidades. Esta nova concepção corresponde a noção de ‘múltiplos tempos simultâneos compreendidos dentro de um único tempo irreversível’ proveniente da mecânica quântica e oferece um novo paradigma de representação onde a previsibilidade de um evento dependerá, ao mesmo tempo, do simbólico e do científico, de uma leitura simbólica do inconsciente e do rigor crítico da sua interpretação.

Feitas essas considerações gerais, voltemos agora ao estudo dos orixás e ao sistema divinatório do Ifá.


O HERMENEUTA
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NOTAS

(1) ELIADE, M. Tratado Histórico das Religiões. São Paulo: Martins Pena, 1993.

(2) ALLEAU, R. A Ciência dos Símbolos. Lisboa: Edições 70, 1982.

(3) WILHEM, R. I Ching - O Livro das Mutações. São Paulo: Pensamento, 1986.

(4) VON FRANZ, M.L. Adivinhação e Sincronicidade. São Paulo: Pensamento, 1990.

(5) ZOHAR, D. Através das barreiras do Tempo - um estudo sobre a precognição e a física moderna. São Paulo: Pensamento, 1982.