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A Caverna de Platão

 De todas alegorias ou metáforas envolvendo o tema do espelho, a de maior significação epistemológica certamente é a da imagem da Caverna descrita por Platão:
 
Acorrentados de costas para a luz em um cárcere subterrâneo, os prisioneiros só podem ver, dos homens, animais e figuras que passam pelo exterior, as sombras projetadas no fundo da Caverna. Quando um dos prisioneiros se liberta e retorna ao mundo exterior, é cego pela luminosidade do Sol e só aos poucos consegue se adaptar à nova realidade. Percebe, então, que o mundo no qual vivia era irreal e inconsciente, feito de sombras e reflexos das coisas. Porém, o prisioneiro correria sério risco de vida se, retornando ao interior da caverna, procurasse revelar aos seus antigos companheiros a irrealidade do mundo em que se encontram.
 Provavelmente, eles o matariam.

  Nesta imagem genial, Platão não apenas resumiu sua concepção sobre a realidade e a linguagem, mas também nos trasmitiu sua experiência pessoal, mais precisamente, sua explicação filosófica para o trágico destino de seu mestre, Sócrates, forçado a beber veneno pelas autoridades atenienses em virtude de sua defesa intransigente de uma visão mais objetiva da realidade. E não foi o único. Giordano Bruno geralmente costuma encabeçar a longa lista dos mártires da ciência e do pensamento objetivo vitimados pela ignorância dos homens escravizados pelas representações subjetivas da realidade.

 Entretanto, o desenvolvimento do pensamento científico não foi, como nos faz pensar o senso-comum, um gradual acumular de informações, mas, ao contrário, uma série de reviravoltas metodológicas, com sucessivas trocas de modelo. O próprio conceito de paradigma - ‘conjunto de estruturas cognitivas e epistemológicas’ - surgiu de uma longa discussão metodológica em torno das revoluções científicas  .

 Hoje, no entanto, vivemos um momento em que a racionalidade científica e sua visão objetiva do universo destroçaram a maioria das ilusões ideológicas das representações subjetivas. Poderíamos dizer, utilizando a imagem de Platão, que todos os homens se libertaram da caverna e do seu espelho, e que agora desprezam as imagens fantasmagóricas a que estavam acostumados no cativeiro. Neste novo contexto, as sombras tornaram-se símbolos do inconsciente - a que os ‘homens racionais’ negam, mas que voltam em seus sonhos e nas reflexões involuntárias de sua imaginação. Movidos pelo auto-conhecimento, os homens que atualmente decidem ‘voltar à caverna e ao seu velho espelho’  são considerados loucos ou excêntricos.  Não se trata mais de conhecer a objetividade, mas de observar o desenvolvimento da consciência inter-subjetiva, de entender sua linguagem.

 Assim, por exemplo, no paradigma científico da astronomia, sabemos que a Terra gira em torno do Sol; no entanto, continuamos dependendo simbolicamente do paradigma subjetivo da astrologia, que como uma linguagem do inconsciente, condiciona atitudes e comportamentos. Aliás, ao contrário do que pensam os historiadores da ciência, o sistema geocêntrico não significa que Ptolomeu acreditasse que o Sol girasse em torno da Terra, mas sim que ele colocava a questão da representação objetiva do universo em um segundo plano diante da idéia de decifração do destino através da observação especular das estrelas.

 A tarefa metodológica que nos é contemporânea é estabelecer um terceiro paradigma de representação que concilie a objetividade científica com a função simbólica da linguagem desenvolvidaa pelo hemisfério esquerdo do célebro, que integre nosso conhecimento astronômico em uma nova simbologia astrológica, que relacione o espelho no fundo da caverna ao sol e ao mundo exterior.