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A Lua, a Mulher e o Espelho

 Pelo fato de não emanarem luz própria mas de refleti-la, os espelhos foram associados à Lua durante toda Antiguidade. Desta associação chave, sobrepuseram-se as que relacionam o Espelho ao feminino e à sua beleza. O simbolismo lunar do Espelho, no entanto, não se limita às mulheres e aos poetas que lhes cantam a beleza, mas encontra lugar também entre os feiticeiros e mágicos, que utilizavam as superfícies espelhadas para entrar em transe, como é o caso dos xamãs siberianos.

 Possivelmente, a tradição de utilização mágica do espelho tenha tido sua origem no fato de ele ter sido usado na astronomia/astrologia  para determinar o movimento das estrelas no céu. Não é sem motivo que o verbo especular, operação mental, procede do latim especulum, que originariamente significava observar o céu, admirar e estudar suas constelações.  Como os estudiosos da ciência dos astros desta época, invariavelmente, eram também magos, os espelhos foram, gradativamente, interiorizados.

 ”De modo que” - comenta o cabalista Mario Satz  - “o espelho não somente está fora de nós, como um artifício metálico, disco polido entrevisto no toucador ou no harém, mas se encontra também entre os hemiférios cerebrais, que invertem o contemplado transladando o esquerdo ao direito e vice-versa.” É curioso observar que este duplo processo de representação da realidade através de espelhos se desenvolveu paralelamente em diversas culturas antigas - na China, na Índia, no Oriente Médio e no Mediterrâneo -  gerando diferentes mitologias astrológicas, mas uma única concepção universal de representação.

 A contemplação deste ‘espelho interior’ é particularmente rica entre os místicos sufis, que o entendem em um sentido semelhante ao de São Paulo, como a imagem de Deus e do Homem. “Deus é, pois” - escreveu Ibn Árabi de Múrcia  - “o espelho no qual tu mesmo te vês; do mesmo modo que tú és seu espelho em que Ele contempla seus nomes”. Outro místico sufi, Shabistari, é ainda mais específico em seu Jardim do Mistério
 

 “O não-ser é um espelho, o mundo uma imagem, o homem é o olho dessa imagem, e Ele a luz do olho. Quem alguma vez viu o olho através do qual todas as coisas são vistas? O mundo se tornou homem, e o homem, mundo; não há explicação mais clara que essa. Quando olhas atentamente no coração da matéria, Ele é ao mesmo tempo a visão, o olho, a coisa olhada. A Santa Tradição nos legou isto, e sem olho nem ouvido o demonstrou”.

 Também o Zohar, recomenda que, para que o homem possa conhecer a Glória, utilize-se de um espelho, observando-a indiretamente para não ser cego por sua luminosidade resplandecente. Ou seja, o tema do Espelho é uma unanimidade entre os místicos, sejam  judeus, cristãos ou mulçumanos. Este curioso consenso talvez explique a crença, também universal, de que quebrar um espelho acarreta em um longo período de azar ou má-sorte. Também a crença de que as ‘criaturas sem alma sob a forma humana’, como os vampiros e os zumbis, não têm suas imagens refletidas no Espelho; deve ter sua origem na associação universal dos espelhos à imagem holográfica de Deus no Homem, feita em diversas épocas por diferentes religiões.

 Adiante, quando analisarmos a lenda de Oxum, veremos como, devido a sua associação universal com a Lua, o Espelho guarda uma relação direta com o simbolismo aguático, mas dele se diferencia por refletir a luz do fogo elementar. Agora, o importante é que se entenda que quando se fala do simbolismo do Espelho não se trata apenas da mitológica ilusão de Narciso ou ainda da fútil vaidade feminina, mas também da contemplação mística à luz de um limbo transcendente.

 Mas se o Espelho serve para que as donzelas e cortesãs reforcem seus egos e para que os sábios místicos se desvencilhem dos seus, ele também é uma poderosa arma de guerra, utilizada para atear fogo gerar à distância através de raios luminosos, como no célebre episódio atribuido a Arquimedes de Siracusa, que com um gigantesco espelho catóptrico incendiava os návios que tentavam invadir a antiga ilha da Sicília.

 De todas as lendas envolvendo espelhos como arma a mais conhecida é, sem sombra de dúvida, a luta de Kadmo contra a Medusa, narrada por Platão no Timeu . Nesta narrativa, o herói vence a terrível górgona, cujo o olhar tem o poder de transformar seus oponentes em pedra, com a ajuda de um espelho preso ao seu escudo. Kadmo fez com que a Medusa visualizasse sua própria imagem refletida no espelho e tivesse o mesmo destino de suas vítimas, petrificando-se para sempre. Ou seja, o espelho é uma arma capaz de fazer com que o outro se reconheça, com que o adversário tome consciência de si e de suas projeções. O mal reconhecendo a si mesmo como tal, perde toda a sua eficácia e sucumbe a sua própria consciência.

 Talvez por isso, em seu livro De Natura Deorum, Cícero lembra que o Espelho é uma invenção de Esculápio, o deus da medicina; e os antigos sacerdotes nahuas do México costumavam levar um espelho pendurado no peito para que os “demais (homens) descobrissem seu verdadeiro rosto e ser corrigissem” . Pena que este expediente simbólico não tenha funcionado com os conquistadores espanhóis. Estes, aliás, realizaram boa parte da conquista das Américas a custa da sedução de miçangas e dos espelhos, presenteando-os aos indígenas, para que enquanto eles se distraissem com seus reflexos, não percebessem o que se tramava às suas costas.

 Caberia ainda lembrar que a sobreposição de temas aparentemente contrários fez do Símbolo do Espelho uma metáfora do paradigma epistemológico pré-científico e, posteriormente, devido a sua reflexibilidade passiva frente ao pensamento consciente, o Espelho passou a ser comparado com o próprio inconsciente - como detalharemos mais a frente no anexo dedicado às relações do dispositivo especular com as ciências humanas.