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Sempre fomos Cyborgs
  • DEFINIÇÕES CONTEMPORÂNEAS DE CULTURA
Em 1968, a revolução cultural eclodiu na China; a Índia fabricou sua bomba atômica e o Japão começou sua arrancada tecnológica. Em contrapartida, o misticismo e as filosofias orientais invadiram o Ocidente, chegando a influenciar sensivelmente disciplinas científicas como a psicologia experimental e a física teórica. Também a invasão soviética na Tcheco-eslováquia poria fim à divisão bipolar da guerra fria, abrindo um tempo de multiplicidade diplomática e política. O fenômeno da contracultura, mais que uma mera revolta jovem contra as instituições da sociedade civil ou de uma revolução de costumes, marcou o início de uma irreversível planetarização cultural ainda em curso e que, cada vez mais, é acentuada pela transnacionalização da mídia e dos meios de comunicação de massa. 68, que segundo se diz 'é um ano que ainda não acabou', ficou marcado pela imagem da primeira transmissão via satélite de TV em escala planetária - os Beatles cantando um rock que explica tudo: 'All you need is Love'.
 
Desenvolvimento tecnológico cultural
Anos 70. O transistor - a miniaturização dos aparelhos de recepção (e a conseqüente complexificação pela mobilidade) - e a possibilidade das transmissões via satélite multiplicaram os serviços comunicacionais, desencadeando uma internacionalização cultural irreversível.
Anos 80. Já o microship está modificando nossas formas de memorização. A mudança no processo cognitivo social. A interatividade dialógica e a interface homem-máquina. A interatividade múltipla, muitos pontos de transmissão e de recepção não coincidentes.
Anos 90. A digitalização do mundo. A fibra ótica e as micro-ondas. A educação construtivista e o império do marketing - a comunicação como estratégia para solução de conflitos.

E mais: esta planetarização não se desenvolve centralizadamente pelo uso coercitivo da força nem pelas 'necessidades econômicas da produção', mas sim de uma forma aparentemente descentrada e consensual, sempre enfatizando o declínio da esfera pública frente a sociedade civil, seja na versão neo-liberal de um 'ajuste' econômico voluntário dos países periféricos sub-industrializados ao programa privatizador e ante-protecionista do FMI; ou (por outro lado, mas no mesmo sentido) no movimento das ONG's em torno da ecologia e dos direitos humanos, que, herdeiras da desobediência civil das barricadas do desejo, sonham com uma nova Utopia: um Estado sem administração, um governo em que todos os serviços públicos seriam terceirizados e em que o executivo fosse um mero coordenador de concorrências.

Este estranho processo de homogeneização descentrada das culturas, este fenômeno bizarro da tribalização massificada - a que uns chamam de globalização e outros, pós-modernidade - só pode ser compreendido através de seus fragmentos, nos quais o global se reflete e se atomiza. É a realidade fractal que impõe um olhar ao mesmo tempo histórico e transdisciplinar.

A arquitetura, sempre invocada como um critério absoluto sobre a definição de movimentos e estilos culturais (barroco, romântico, moderno), pode ser de grande valia para entendermos esta faceta da Contracultura. A arquitetura pós-moderna não possui traços comuns, mas ao contrário, caracteriza-se pela mistura de estilos e de materiais, em uma bricolage funcional voltada para a satisfação do homem e para o equilíbrio ambiental. Assim, por exemplo, há bem pouco tempo não existia tecnologia específica para construir uma edificação grande em determinado local pantanoso (pois seguia-se padrões estéticos e técnicos limitados), hoje, cruzando-se diferentes técnicas de construação que existiram em outros locais e em outras épocas, é possível a definição de um projeto para qualquer espaço. Tomados esses critérios, não é difícil ver nas artes e no pensamento contemporâneos essa mesma possibilidade múltipla e plural. Se não podemos definir a pós-modernidade como um réquiem fúnebre da sociedade industrial, podemos ao menos delimitá-lo como um movimento cultural sem estilo ou estética definidos, marcada pela bricolage criativa, por esta universalidade estilhaçada em diferentes singularidades. É o sincrético sem síntese: o real como mosaico.

Em breve, automóveis e aviões serão monitorados pela Internet através de satélites de microondas e as telecomunicações do planeta serão reorganizados em redes. As novas formas de telefonia móvel que surgem, a partir do marketing interativo de 'estratificação segmentada' da cultura de massas de cada país, estão formando públicos internacionais especializados. E nesta conjuntura múltipla e globalizada, o intercâmbio em tempo real, o estudo operacional dos códigos das redes passará a desempenhar um papel central de mediação entre as culturas. Um novo saber, uma nova ética de caráter semiótico está surgindo não apenas como campo epistemológico entre a biologia, física e psicologia social, mas sobretudo como um saber contemporâneo reencantado: a arte/ciência geral do intercâmbio e das trocas e como uma prática de multiplicação e sincronia do tempo social.

Por outro lado, no que diz respeito à intencionalidade: "Nada há de novo sob o sol". Antigamente, quando se estava com fome urrava-se; quando se queria uma fêmea, uiva-se; e quando se queria lutar contra um inimigo, rosnava-se. Hoje, quando se quer conquistar uma companheira, o homem escreve um poema; para se alimentar, redige um projeto; e, para fazer frente a um inimigo, publica uma matéria jornalística. De forma que o homem continua lutando com a fome, com as mulheres e com seus desafetos - ou com os três códigos primários de Levi Strauss.

Nas últimas décadas, as duas concepções de Cultura que estiveram em voga - a Holística (a cultura humana é a totalidade e esse todo é mais que a soma de suas partes nacionais e étnicas) e a Complexa (o todo cultural é, ao mesmo tempo, mais e menos que a soma de suas partes fractais) - pregava